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Denilson Cardoso de Araújo


PALESTRA NO SAKURÁ - OS DOIS CAMINHOS

 

     Daqui a 150 anos, o Diário de Teresópolis de ontem (04/07) vai ser escaneado por olhos de algum pesquisador cibernético, através da lente de contato com tela de LCD, numa Internet em velocidade do pensamento,  e o cérebro do historiador vai arquivar no nanochip de 200 terabytes implantado atrás da orelha, com conexão neural direta, os acontecimentos que fizeram história nesta serra onde Deus deixou seu dedo.

 

     As manchetes de cabeça do jornal serão vistas. De um lado, à esquerda: ‘SAKURÁ VENCE CONCURSO DE BANDAS E FANFARRAS’. Do outro lado, à direita, ‘PRESO COM MACONHA E CRACK’. Mais abaixo, ‘GAROTO DE QUATORZE ANOS, FLAGRADO PICHANDO. No corpo deste texto, o jovem se explica: “Eu queria deixar minha marca”.

 

     Virtude, crime e vandalismo. A palestra de ontem à noite, no auditório da Secretaria de Educação, para alunos do Sakurá, versou sobre estas opções que o cardápio da vida nos oferece. Por isso, comecei as atividades colando a capa desse jornal na parede. Onde estaremos na História, daqui a 150 anos? Como seremos lembrados? Qual o nosso legado?

 

     Seremos os que aprendemos ordem unida, hierarquia, respeito ao maestro e à pauta musical para enternecer corações e dar ritmo e alegria a tantas vidas, enchendo as ruas com nosso toques marciais e melódicos e, que, além de tudo, vencemos o concurso?

 

     Ou seremos os que ajudamos outros a descerem até ao inferno do vício, porque somos gananciosos, queremos bens materiais e optamos pelo comércio da destruição? Seremos os vândalos que destroem com garranchos sujos a brancura dos muros, pra botar 'nossa marca' de sujeira e destruição (quer deixar sua marca, vá plantar um jardim, companheiro!) ?

 

     Seremos escravos de um sistema social, publicitário, midiático, sexista, que nos quer assim, pessoas vazias, sexólatras e consumistas, que só pensam no aqui e agora, que desprezam a disciplina, a hierarquia, a paciência e o esforço? Ou ensaiaremos exaustivamente a melodia de nossas liras pesadas, a marca de nossos bumbos, o espocar dos taróis, e os carregaremos marchando na “banda” que faz as pessoas pararem pra vê-la passar “tocando coisas de amor”, que levanta “velhos fracos”, “homens que contavam dinheiro”, “a namorada que contava estrelas”, todos parando “pra ver a banda passar, tocando coisas de amor?”

 

     Parabéns, Sakurá!!! Parabéns à Secretaria de Educação pela iniciativa do concurso que chega à 2ª edição. Parabéns a todas as bandas, todas com empenho e dignidade, muitas tão boas quanto a vencedora.

 

     Não nos esqueçamos de tantos projetos sociais que começaram, com jovens batendo lata e transformaram vidas e comunidades. Que assim seja na Sakurá, que assim seja em Teresópolis.

 

     Assim foi, nossa conversa na palestra de ontem. Ah, e terminamos cantando, todos, a musiquinha do sonho. Sonhamos juntos. Valeu, Sakurá!



Categoria: INFÂNCIA E JUVENTUDE
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 11h33
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JOGANDO A INFÂNCIA PELA JANELA

     Como sempre repito em palestras, um dos mecanismos de ação mais nocivos da mídia é a transformação da tragédia em espetáculo.

     Necessariamente, isso provoca uma atração mórbida, não confessada, pelo que ao mesmo tempo nos enoja. "O lado escuro da força" nos convoca. Se a pessoa não está bem estruturada em princípios muito enraizados, a manipulação midiática de seus instintos primais, somada ao espírito de "quero já" a que a cultura (?) de massas nos convoca (para consumo rápido, relações fugazes, laços frouxos), pode implodir racionalidades e a pessoa se entrega ao abismo. Isso ocorre, obviamente, muito mais onde já existe um desequilíbrio estrutural, orgânico ou psicológico.

     Em Curitiba, uma mãe atirou seu bebê pela janela. Não precisaria mais dar mamadeira, trocar fraldas, "quis me livrar do pacote", disse, com todas as letras. Afirma-se que sofria de transtorno bipolar, aquela doença em que, laicamente falando, a nosso lado hoje está um leão com a pata ferida, e amanhã, na mesma pessoa, um cordeiro silencioso ou o cachorrinho brincalhão que nos afaga.

     Não importa. Um bebê foi atirado  pela janela. Morreu.  Foi enterrado hoje. Meu coração doeu, pois se chamava Mariana. O nome da minha filha amada e querida do coração, que hoje aniversaria e a quem desejo longos anos de vida e felicidade.

     A coincidência machucou, mas a lágrima não foi bastante para turvar a obviedade de que, agora, nos poremos todos a blogar, analisar e comentar o fato, como se fosse aquele comportamento estranho a nós, da desviante que surge, aquele com quem não temos a ver, pertencente a outro mundo.

     O mundo é o mesmo! Muitos pais estão querendo se livrar do pacote... Às vezes, porque estão ocupados demais com suas próprias agendas, acabam atirando filhos pela janela da ausência de firmeza e autoridade familiar. Muitos pensam antes em si mesmos, em romances perdidos, traições ocorridas, separações traumáticas, dinheiro no banco que emagrece, ou até mesmo, sobrevivência, que é difícil. E aí, não sobra tempo pra verdadeira educação familiar.

     Mas o pão da alma de todo mundo que um dia, na alma ou no coração, pariu alguém, devia ser: educar. Educar no colo, como diz Erasmo de Rotterdam (olha ele aí de novo!), educar sempre, olhando no olho, educar o tempo todo, fazendo carinho, ensinando as regras, dando os castigos devidos (e todos sabem que não falo de espancamentos), construindo os limites. Não delegar à escola, ao terapeuta, à Drª Inês, a ninguèm!

     Dar senso de realidade. Tirar um pouco de um curso de inglês que vc sempre sonhou em ter e agora dá pra ele, além dos outros trinta em que ele está, e botar pra fazer um serviço comunitário, pra trabalhar numa loja (sim, qual o problema??) levar pra visitar asilos... Sabe aquele monte de brinquedos que vc deixa ele ajuntar no quarto até que a montanha soterre tudo? Leve para as crianças do abrigo, deixe seu filho descobrir o prazer da partilha, mas atenção, não como o 'menino rico' que dá aos pobres, deixe ele brincar com elas, deixe ele visitar a casa da empregada. Ver como é a vida, quanto custa. Que o prato de comida que ele recusa, faz uma festa pra abandonados embaixo duma ponte.

     Ensine-o a repartir. Prefira brinquedos que ele mesmo construa. Com minha filha, nunca comprávamos árvore de Natal, por exemplo. Todo ano havia uma cerimônia de fazer a árvore. De papel, de papelão, de barbante, colagem de pedaços de revista na parede, bambu, o que viesse. Ficava aquele coisa meio bamba, meio troncha, às vezes, aquela coisa totalmente linda. Porque era feita por nós, juntos. Nossa árvore.

     Não o torne um negociador de obrigações, um chantageador. Não lhe dê dinheiro ou Mac Donald's ou parquinho ou carro, só porque ele foi bem numa prova. Dê um abraço, demonstre júbilo, faça festa. Vá pra cozinha com ele, cozinhem juntos. Façam uma fogueira no quintal, assem umas salsichas. "Ah, mas não dá tempo!" Amigo, arrume tempo!!! Isso é investimento seguro. Você evita amanhã, já idoso, ter que cuidar de um infeliz, de um inútil, de um viciado ou de um omisso. Ou de alguém que vai te abandonar porque não se construíram verdadeiros afetos. 

     Não o torne um materialista. Conforme a sua crença, reparta-a com ele, em casa. Se é cristão, faça o culto doméstico, ainda que rápido. Leve-o à igreja. Claro que evitando que ele se torne uim sectário. E se você não tem fé em nada, amigo, reflita e perceba a inutilidade da existência, sem um Ser Superior.

     Você acha duro este programa? Rá... Marquerite Yourcenar uma vez escreveu que no seu programa de educação infantil incluiria visita a cemitérios, a presídios, a hospitais. Ela está certa! A vida não é esta coisa midiática "game-TV-Internet-MP3"!! Na internet ninguém transpira, ninguém tem mau hálito, vc pode ser o rei do pedaço, ainda que seja um bolha. Por isso é que precisamos pisar descalços na terra, sentir o cheiro dos esgotos que fazemos enquanto estamos frente a nossas telas de LCD! Ver que tem crianças que riem e tem dente cariado e seu sorriso - de quem não tinha porque rir - é mais bonito que todas as propagandas colgate do mundo. Descobrir que tem gente que mora ali e não tem tela de LCD nem sabe o que é celular, e não toma banho há semanas porque não tem onde cair morto, porque não sente mais o próprio mau cheiro e se dá por feliz quando acha uma quentinha com uns restos de arroz no lixo... 

     Precisamos aprender a plantar uma árvore! Precisamos lembrar que por baixo desse asfalto que pisamos um dia caminharam índios que perdemos, bichos lindos que se foram, rios onde se pescava, coisas que matamos pra botar nossos prédios, nossas pedras, nosso materialismo, no lugar.

    Precisamos saber as dores do mundo, do mundo que criamos. Saber o que é estar na Vara da Infância, com  uma criança com fome, com as fraldas sujas, sem dinheiro pro ônibus, com os olhos cheios dágua e com medo, porque foi até ali pra cuidar da situação do filho traficante, e não pode sair dali (graças a Deus que sempre surgem na Vara da Infância umas Tulas que acabam sendo anjos nessas horas, ajudando na higiene, no alimento, etc). Aquela mulher que às vezes lava nossos banheiros, cujo marido está desempregado porque temos um sistema econômico contra o qual não lutamos.

     Precisamos dar pros nossos filhos, não uma visão da tragédia. Não se trata de empurrá-los à depressão. Mas é indispensável tirar o colorido photoshop com que maquiamos a vida. É preciso que digamos aos filhos que não basta dar "enter" pra que as coisas aconteçam. Ensinar o aprendizado da espera, da lavoura, da paciência. Do sanduíche que não daremos agora, da viagem que proibiremos porque hoje é dia de pintar a casa em família, pais, mães e filhos, pintando a própria casa. Fazendo o próprio jardim.

     No Brasil de hoje, filhos são atirados pela janela. Alguns, apenas demoram mais a cair. Por isso, não percebemos. Muitas vezes só os achamos na calçada, quanto estão com seus 17, 25, às vezes 30 anos. Muitas veses, só aí percebemos que nossas atitudes do passado o atiraram pela janela.

     Que ninguém que lê estas linhas hoje precise viver esta tragédia. É minha sincera prece.



Categoria: INFÂNCIA E JUVENTUDE
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 18h42
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EXODUS

 

 Exodus

Denilson Cardoso de Araújo

 

À beira rio,

me olhando

lá embaixo,

percebo.

Águas espelham.

Espelhos, derretem.

Derretimentos

secam em pedras.

Grossas pedras,

de água batidas,

areias viram.

E areias vivas

tornam-se espelho.

Basta um forno,

um fogo e um

crepúsculo.

 

Tudo escorre,

Heráclito diz:

-Diferente agora

o rio de ontem, ou

mudada a pessoa

que o atravessa.

Na verdade,

contesto.

Tudo o mesmo.

A verdade é

o movimento.

A mudança é

que é a raiz

das coisas.

O escorrer silente

é que é a solidez

das gentes.

Deus não estanca.

Move-se.

Por isso,

algumas fés

se perdem.

Querem repouso.

Querem pedra.

Mas a pedra

é transitória.

Véspera de espelho.

Espelho, o ontem

da água,

que ora me

reflete.



Categoria: POESIA, ARTE E CIA
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h18
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EU QUERIA SER ERASMO DE ROTERDAM

     Acabei de chegar da palestra no Higino da Silveira. Tivemos uns probleminhas aqui e ali, microfone que não funcionou, garganta, por isso, agora acabada, horário mais curto que o esperado, tendo que abreviar a palestra. Para evitar tais pequenos percalços, peço que as escolas quebrem o galho, combinando legal esses detalhes, antes, com a Eliene. Bom mas, isso não é o importante.

     O importante é ter sido super bem recebido pelas Diretoras Adriana e Vera e por uma platéia atenta, de uns, 100, 120 pais e mães.

     A grande estrela da noite foi o livro sobre o qual falei na postagem anterior: "De pueris" (Dos meninos), de Erasmo de Roterdam. Pois é, falei tanto no tal do livrinho valiosíssimo e baratinho, citando trechos, inclusive, que, ao final, "milhares" de pessoas me cercaram pra que eu anotasse o nome do livro, porque irão comprar! Foi bonito, porque muitas pessoas eram humildes, mas é bacana ver como os grandes sábios escrevem e falam simples, e chegam no coração do povo. A gente, que complica, é porque, sábios mesmo, pra valer, não somos. 

     Bom, o fato é que o livro vai vender mais e muito, porque vou continuar falando dele. Ah, se eu fosse Erasmo, ia dar uma grana de direitos, hem???



Categoria: INFÂNCIA E JUVENTUDE
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 21h05
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UMA DICA, PROFESSORES, PAIS, ESCOLA DA PAZ!!

     Está nas bancas, naquelas democráticas edições da Escala (Col. Grandes Obras do Pensamento Universal), a obra "De Pueris" (Dos meninos), de Erasmo de Rotterdam, o grande humanista. Não percam!!!

     O cara é genial!!! E atualíssimo!!! Depois de rolar tanta água de filosofia, pedagogia, teses, debates improdutivos, novas técnicas revolucionárias a cada ano, precisamos voltar a Erasmo. Olha só os títulos dos pequenos capítulos de seu livro: "O Educador realiza, em plenitude, a paternidade", "A educação principia na fase do aleitamento", "Respeito à ordem de valores", "Paternidade não se reduz ao ato gerativo", "A papagaio velho aborrece o treinamento" (logo, precisa começar cedo), "O direito à educação nasce no berço", "Parcimônia em educação revela demência", "Oxalá só existisse a escola pública", "Castigo acoberta incompetência"... e por aí vai.

     Amigos, o cara viveu entre o final do século XV e começo do XVI! 500 anos passados, e estamos aqui, nas palestras, no Escola da Paz, simplesmente tendo que reaprender aquele básico genial do qual nos perdemos. Isso é que dá desprezar passado, achar arcaico o que só é mas vivido. Taí, 500 anos, o velhinho de Rotterdam, e esbanjando saúde filosófica e atualidade pedagógica.

     Quanto aos deveres dos pais, por exemplo, Erasmo (com grifos meus) diz: "Os homens cuidam em ter um bom cachorro para a caça, em possuir cavalo forte para cavalgar. Em tudo isso ninguém os recrimina de diligência precoce. Em se  tratando de filho que, com seu brio, honra os pais e até lhes assiste, ao qual, mais tarde, transfere-se boa parte dos encargos domésticos, de cujos préstimos a velhice pode receber segurança e apoio, além de fiel defensor da linhagem como esposo prestante, probo e útil cidadão para a pátria, enfim, NO QUE TANGE A TUDO ISSO, OU IMPERA OMISSÃO TOTAL OU SÓ SE ACORDA TARDIAMENTE. PARA QUEM OS PAIS SEMEIAM? PARA QUEM ARAM? PARA QUEM SE AFADIGAM EM ANGARIAR RIQUEZAS POR MAR E TERRA? NÃO É BEM PARA SEUS FILHOS? QUE USO E PROVEITO EM TER TANTOS BENS SE, AQUELE A QUEM ISSO TUDO SE DESTINA NÃO SABE COMO ADMINISTRÁ-LOS?

     E olha este outro trecho, genial: "...Chegam aos nossos ouvidos estranhas lamentações do povo. DIZEM QUE A NATUREZA INFANTIL É POR DEMAIS PROPENSA AO DESREGRAMENTO: QUE É DIFÍCIL ATRAIR A CRIANÇA PARA O GOSTO POR COISAS HONESTAS! Há exagero ao recriminarem assim a natureza. A MAIOR PARCELA DAQUELE MAL DEVE SER DEBITADO A NOSSOS ERROS, POIS CORROMPEMOS O ESPÍRITO COM VÍCIOS BEM ANTES DE ACOSTUMÁ-LO COM A VIRTUDE. A POUCA DOCILIDADE DA CRIANÇA PARA AS COISAS BOAS DEVE-SE AO FATO DE TER SIDO, ANTERIORMENTE, PREDISPOSTA PARA A DEVASSIDÃO."

     E olha que, naquele tempo, nem existia TV, Internet, etc e cia.   



Categoria: INFÂNCIA E JUVENTUDE
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 08h24
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